A vingança do cão



Marcos não se lembra mais da primeira vez. Na verdade, ele nem pensava mais nisso.
Alguns anos antes, tarde da noite, Marcos voltava da casa dos pais. Seu pensamento distante pairava nos compassos da parada de sucesso que tocava na rádio. Sua mente pairava entre o orgulho e a felicidade. Ele nasceu em uma família pobre, porém havia conquistado muita coisa com suas próprias mãos. Havia aprendido a dirigir o velho carro do pai dele ainda quando adolescente, mas agora já estava dirigindo seu próprio carro, um modelo bem melhor, rumo a sua casa, quilômetros de distância da zona pobre onde seus pais ainda moravam.
Seu pensamento foi arrancado de sua cabeça no exato momento que já era impossível frear. Um aperto no coração se deu no mesmo momento que o corpo do cachorro se chocou contra o para-choque do carro. Assim como se desfez antes que o corpo passasse por baixo de dois pares de rodas.
Quase por instinto Marcos foi verificar o que exatamente havia acontecido. Um pobre vira-lata estava caído, a luz vermelha do farol banhando a pelagem e dando um tom angustiante a infeliz cena. Marcos olhava o sangue saindo pela boca do cachorro junto com um leve ganido. Ele não sabia o que fazer, então o pânico o levou ao acento do motorista e de volta à estrada. Marcos não olhou pelo retrovisor até estar na segurança de sua garagem.
Houve uma outra vez também que Marcos não contou a ninguém. Uma outra vez também que ele nem se lembra mais. Não há porque pensar nessas coisas. A aurora já despontava no céu quando Marcos deixou a casa de sua namorada após uma extensa briga que havia perdurado toda a madrugada.
O ódio que ele sentia deixava o tênue brilho azulado da primeira hora da manhã completamente rubro.
O susto fez com que parasse o carro. O animal já estava sem vida, seu crânio esmagado embaixo da roda. Era um cachorro grande. Marcos pensou que ele poderia ter sobrevivido se a batida não tivesse sido tão forte. À luz do dia foi nítido para Marcos que o carro não estava amassado.
Não é possível dizer quando aconteceu.
Talvez tenha sido naquele dia, após uma festa, totalmente embriagado, depois de brigar com um velho amigo que não queria que ele dirigisse. Aquela vez havia sido um filhote. Marcos não se lembrava.
Ou quem sabe na manhã daquele sábado quando deu ré e atropelou um cão que dormia abrigado embaixo do seu carro.
Marcos não pode se lembrar quando o aperto no peito virou susto. Quando a dó se tornou ausente e se um dia se fez presente.
Ele não sabe quando os acidentes se tornaram hábitos.
Marcos acredita que todo mundo tem um hobby ou dois. Ele é viciado em whisky 12 anos com charutos importados nas tardes de domingo e atropelar cães.
Desde o começo, aquele breve estalo de adrenalina no instante que se tem a noção que algo aconteceu, que se atropelou alguma coisa. Aquela explosão de hormônios viciou Marcos.
Em algum momento o infeliz acaso se transformou em buscar uma vítima. Em vez de brecar, acelerar. Em vez de desviar, seguia certeiro em frente. Tentou se desculpar algumas vezes para si mesmo dizendo que errara, se confundira com os pedais, mas abandonou rápido esse breve costume. De algum tempo para cá ele simplesmente dirige sempre à procura de algum cão distraído.
Marcos tentou outras possibilidades. Uma vez foi um gato. Lembra-se de um roedor selvagem numa estrada. Em uma noite, no centro da cidade vazio, teve a oportunidade de experimentar em um mendigo, bem, talvez fosse um bêbado, ele não tem como dizer. Mas nada era comparável.
Quem sabe se Marcos frequentasse um psiquiatra ele pudesse determinar porque só cachorros o satisfaziam. Marcos não poderia dizer. Ele nunca foi a uma terapia sequer, sempre dizendo que isso é coisa de maluco.
Com seu hábito já enraizado, Marcos já não tem mais pudor. Se necessário for ele sobe em uma caçada. Os cachorros distraídos no meio da rua já não são mais suficientes.
Já fazia uma semana. Marcos havia saído trade de uma reunião e quando estava perto de casa percebeu que mais um dia terminaria sem que ele pudesse experimentar novamente a sensação que ele tanto gostava.
Foi nesse momento que decidiu: só dormiria quando seu placar mental aumentasse mais um número. Sessenta e dois.
A noite caia profunda e marcos precisou relembrar algumas de suas conquistas para se manter acordado. Na sua memória se remontou o momento que havia conseguido atropelar dois de uma vez. Ele até havia se dado um presente pela sua sorte. Essa lembrança foi o suficiente para lhe dar o gás necessário para tentar até conseguir seu prêmio do dia, não importasse que horas fosse.
O locutor no rádio anunciava, antes de voltar para a parada de sucessos, a hora: meia noite e doze. Na esquina de um beco ele avistou seu alvo. Marcos apertou o volante, os nós dos dedos se esbranquiçaram. Um fio de saliva despontou no canto da boca.
O cachorro correu para a escuridão. Marcos virou o carro, acelerando, e o seguiu para dentro da viela.
O baque. Marcos se deixou apreciar o instante. Era um cachorro de porte grande, gordo. Não foi um atropelamento excepcional, mas era válido, em breve faria um melhor. Foi mudar a marcha para poder dar ré e ir embora da rua sem saída. O carro morreu. Tentou religá-lo. Nada. O motor fazia força junto com a chave virada na ignição, mas assim que a mão de Marcos não fazia mais pressão o motor tornava a morrer. Tentou sete vezes. Um barulho singular vinha do motor. Cada vez que tentava religar o carro o som parecia mais forte. Desistiu da ignição. Abriu a porta e foi verificar o que poderia ter acontecido.
O breu era quebrado pela leve luz da iluminação da rua principal. Mesmo assim ele pode apreciar. A velocidade da pancada fora forte o bastante para destruir o corpo do animal. Marcos percebeu que o cachorro não era gordo e sim que era uma cadela grávida. Quatro fetos podiam ser vistos pelos rasgos da barriga da mãe.
A adrenalina percorreu todo o corpo de Marcos, do pé a cabeça, em um milésimo de segundo, quando ouviu um rosnado. Olhou a cadela imóvel no chão, sangue, tripas e filhotinhos estáticos. Olhou em volta, o silêncio tomara conta do lugar.
Mais um rosnado. Agora mais alto e claro. Marcos, em pânico, buscou com o olhar a cadela morta. Ela permanecia na mesma posição. O rosnado cessara.
Ele começou a ponderar se sua mente, distorcida por uma consciência tardia, resolvera lhe pregar peças.
Marcos teve certeza que sua alma havia abandonado seu corpo por um instante quando viu o animal no chão levantar a cabeça e olhá-lo com suas órbitas oculares vazias.
Marcos virou para correr, impulsionado pelo puro pavor, e se deparou com dezenas de cachorros.
Todos parados o olhavam, uns sem perna, alguns babavam sangue, outros completamente desfigurados, rosnavam juntos numa melodia infernal.
Antes que pudesse se mexer, todos o alcançaram. Marcos foi derrubado no chão, sua carne sendo devorada a mordidas, o som dos latidos ecoando no ar.
Enquanto seu sangue vertia e a dor já não podia ser sentida, ele tentava se arrepender achando que assim poderia evitar o castigo que viera para puni-lo.
Os corpos animados dos seus assassinatos não se importavam com sua tentativa frágil e hipócrita. Sua vida foi ceifada, mordida a mordida pelos dentes de suas vítimas.

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