O dia está morrendo, a noite está caindo.
O barulho insano da cidade desce para um nível surdo onde nada mais
pode ser ouvido.
Eu acho um beco, uma cadeira podre ao seu
fim, depois da morte. Eu sento nela e observo.
Assisto a cidade acabar num colapso
apressado. Depois do seu apogeu, agoniza e parece morrer.
Mas na hora do ceifador as sombras nascem.
Uma a uma elas saltam pra vida começando uma dança hipnótica.
A instabilidade é sólida, a insanidade é
palpável.
Eu levanto. Está na hora. A escuridão me
abraça enquanto eu caminho.
Eu paro na entrada do cemitério. O eterno
descanso putrefato de sonhos perdidos e desejos não cumpridos.
Eu sorrio de vota para o lábio amarelo no
céu e entro.
Eu ando pelos corredores sendo cercado por
almas inquietas que quebram a noite com gritos de pensamentos
tortuosos.
Eu não me importo com elas.
Eu me importo somente com o incontrolável
e selvagem amor perdido.
Você, minha querida. Minha querida amada.
Em vida, milhas de terra e água nos separaram. E agora, quando eu
estou aqui, o destino coloca a distância final entre nós.
Mas meu amor é maior do que a morte e hoje
eu irei lhe mostrar.
A lua pálida e o brilho das estrelas me
mostram onde você está.
Eu paro por um minuto, sentindo e saboreando
o vento da noite. Por um instante eu posso ouvir um sussurro feminino
dizendo: não, por favor, não.
Da mesma forma como antes, eu não ouço e
começo a cavar a cova.
Minhas mãos sangram, mas não doem mais.
Meu coração partido não bate mais.
Eu posso ver. Posso ver você deitada num
caixão de cristal. Eu atravesso o vidro com a minha mão, colocando
mais cicatrizes no meu corpo, muitas mais do que eu gostaria.
Sua pele, sua carne, estão tão frias, mas
eu ainda consigo sentir a calor que você teve um dia.
Gotas começam a cair, dos meus olhos e do
céu.
A fúria de centenas de trovões estronda na
noite silenciando seus gritos quando eu lentamente começo a comer
você.
A terra esta molhada e morta. Os espíritos
estão em silêncio, a lua se foi e o céu já não é escuro.
Estou sujo. Minha pele está cheia de lama e
minha alma cheia de pecados. Mas eu estou satisfeito. Eu estou feliz.
Você é minha agora. Você estará comigo todos os dias. Para
sempre.
Eu me levanto, sentindo minhas pernas
novamente. O azul claro começa a despontar no céu. Eu tenho um
gosto amargo na minha boca. E um gosto não é o suficiente.
A mesma sensação de novo. O sentimento
cresce até que eu não possa mais aguentar e não consiga mais me
controlar. E eu voltarei aqui. Uma vez mais. No meio da noite para
devorar meu amor uma vez mais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Diga-me o que você, sua mente, sua alma, seu alter-ego e sua outra personalidade pensam disso.