Dia 1
Eu acordei e não sei onde estou.
Eu não lembro de nada.

Dia 2
Não lembro de ter ido dormir.
Não lembro de acordar.
Não lembro quem eu sou.

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Dia 5
Por que?

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Dia 7
Minha voz se esvaiu. Não importa. Ninguém virá.
Eu não sei onde estou. Ninguém sabe.
Bati e esmurrei a porta por dias.
Minhas unhas ficaram presas nos veios da madeira.
Não sei onde é aqui.
O cheiro fétido de esgoto e carniça já não arde as minhas narinas.
A tênue claridade que entra pelo vão da porta já é suficiente pare eu enxergar todo o buraco asqueroso no qual eu me encontro.
Não entendo o que eu fiz para merecer estar aqui.

Dia 8
A fome é maior que qualquer coisa.
Consegui pegar um rato.
Alguma coisa dentro de mim se retraiu de nojo quando eu devorei ele ainda guinchando.

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Dia 11
Adormeci enquanto chorava.
Mais de uma vez.
Me corpo todo dói por conta das minhas tentativas de derrubar a porta.
O silêncio do outro lado só é amaciado pelo correr da água e interrompido pelo barulho dos ratos.

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Dia 13
o...n...d...e...e...u...e...s...t...o...u…
? ? ?

Dia 14
hoje eu comi meu terceiro rato.
Acho que me perdi.

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Dia 18
Acordei com um nome ecoando na minha mente.
Raquel.
Não sei quem é ela.
Será que ela sou eu?

Dia 19
Tentei ser a Raquel.
Não sou ela.
Queria ser.
Ela está lá fora, em algum lugar, deitada, feliz, na grama, comendo uma maça.
A mim restam os ratos.

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Dia 23
Acordei no momento que ela pegou a minha mão.
Minha mão de criança.
A Raquel.
Ela era a minha mãe.
Eu sou alguém.

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Dia 27
Raquel sumiu.
Minha mãe me abandonou, fugiu dos meus pensamentos.
Caída no chão, com meus lábios ao lodo, limo e lama, eu sussurro o nome dela, a chamando de volta.

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Dia 32
Os ratos estão escassos.
Eles sabem o que eu fiz.

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Dia 39
Em pé, vestindo apenas uma grossa camada de sujeira eu observo o que tenho.
Giz
Fragmentos de uma blusa, talvez lilás
Um pedaço de jornal data de maio de 1922
Um cordão com uma medalha (talvez da Raquel)
Um ingresso de um show
Uma foto borrada onde há uma menina sendo abraçada por uma mulher

Dia 40
Quem sou eu?
Eu sinto que qualquer lógica está se esvaindo pelos meus dedos trêmulos.
Não consigo pensar.
Não consigo lembrar.
Onde eu estou?
Como vim parar aqui? Por que vim parar aqui?
Por favor, alguém me ajude…

Dia 41
Ela apareceu de novo pra mim nos meus sonhos.
Ela pegava minha mão de criança.
Chegava seus lábios perto dos meus ouvidos e murmurava meu nome.
Meu nome.
Meu nome!
Não consigo lembrar... não consigo.

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Dia 44
Ela me visita nos meus sonhos.
Se eu deitar bem quieta, de olhos fechados, consigo vê-la mesmo acordada.

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Dia 51
As minhas mãos ainda estão tremendo, mas eu preciso escrever antes que esqueça.
Eu ouvi a voz dela. Eu ouvi o que ela sussurrava no meu ouvido.
Não era meu nome.
Era um verso.
Ela disse e sorriu pra mim.

Não está morto aquele que pode eternamente jazer,
E em épocas estranhas até a morte pode vir a morrer.”

Estranhamente isso me deu paz.

Dia 52
Acordei assustada.
Eu juro que ouvi um grito.
Estou gritando de volta há horas.

Dia 53
Um baque forte na porta me despertou.
A tênue luz que iluminava desapareceu.
Um segundo estrondo estremeceu a porta toda por inteiro.
Estou, desde então, encolhida em um canto.
A luz não voltou.
O que quer que seja aquilo ainda está do outro lado da porta.

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Dia 57
A luz voltou, mas minha mãe não.
Me sinto só.
Me sinto exausta.
Fragmentada.
Buscando respostas para perguntas que eu não sei quais são.

Dia 58
Ontem tentei me matar.
Tentei abrir cortes com a medalha.
Não tenho força o suficiente para penetrar até as veias e deixar o sangue escorrer para a eternidade.

Dia 59
Ela sorriu pra mim e repetiu seu verso como numa canção.
É como uma última fagulha da fogueira.
Me acolhe a alma.
E me lembro que ainda tenho uma.
Que ainda existo.

Dia 60
Ela sorriu pra mim e repetiu seu verso como numa canção.
Um leve choque.
Ainda existo.
Mas quem sou eu?

Dia 61
Ela sorriu pra mim e repetiu seu verso como numa canção.
Um estranho desconforto.
Tentei sentir paz.
Tentei.

Dia 62
Ela não sorriu pra mim e repetiu seu verso como numa canção.

Dia 63
Ela não sorriu pra mim e repetiu seu verso como numa canção.
Apertou com força a minha mão de criança.
Ela não sorriu pra mim e repetiu seu verso com aversão.

Dia 64
Ela não sorriu pra mim e repetiu seu verso com aversão.
Apertou com força a minha mão de criança.
Rasgando a minha carne e fazendo brotar o sangue em minha pele.

Dia 65
Ela repetiu o verso com aversão.
E me rasgou.
E repetiu o verso.
E me rasgou.
E repetiu o verso.
E me rasgou.
E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou. E repetiu. E rasgou.

Dia 66
Meu corpo dói.
A sua voz ecoa no meu ouvido machucado.
Sinto frio na alma.

Dia 67
Escutei um arranhar.
Poderia ser um rato. Quem sabe poderia comer.
Prestei atenção.
O barulho vinha não da porta, mas da parede.
Fiquei olhando bem de perto. O que poderia estar arranhando a parede por dentro?

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