Eu sei que hoje é a noite.
Um apagão colocou a cidade inteira no
escuro.
Quando a escuridão chegou eu soube que era
a hora de abandonar tudo.
Eu deixei para trás meu apartamento cheio
de lixo, poeira, fumaça e fogo.
Eu estou no centro da cidade agora, a chuva
chega até mim fazendo uma cortina que eu preciso atravessar.
Além de mim, os sem-teto são os únicos
nas ruas. Agora eu sou um deles.
Eles não têm nada, eu não tenho nada. As
aflições passadas não são mais parte da nossa vida.
Eles já veem. E eu quero saber. Eu preciso
saber.
Quando você não tem uma vida, outras
coisas preenchem sua alma.
Eu conheço o caminho. Com anos de pesquisa
eu descobri como fazer. Mas só essa noite eu compreendi que eu não
posso ter mais nada, porque isso precisa de todo o meu eu para entrar
e ser parte de mim. Para ser eu.
No passado, em uma era esquecida, todo
liquido era um portal.
Através dele você pode ver. Pode saber.
Pode ter as respostas. Você pode ter a verdade.
Antes do nosso tempo, em um tempo mais
antigo, uma raça ancestral usou um ritual. E a verdade morreu com
essas pessoas e esse rito.
Mas essa noite eu recriarei isso.
E agora eu estou aqui, no meio da cidade, em
uma grande noite escura. Apenas eu, a chuva morna e os outros
desabrigados.
Eles sabem. Seus olhos estão focados em
mim, me seguindo mesmo quando não conseguem me ver.
Esses olhos. Eu posso ver através deles. Eu
posso ver o que eles viram. E eles estão cheios disso.
Eu quero ver. Eu preciso ver.
E u paro na frente de uma poça negra feita
de sujeira e água. Eu sinto os sem-teto pararem. Um grito de uma
senhora é preso na garganta dela. Não há mais o som da tempestade.
Somente eu e a água suja.
Eu olho através e eu vejo. Um único olho
inumano feito de cinzas olha para mim. Eu não consigo encará-lo por
muito tempo e ele se vai para sempre.
Isso não era o que em queria ver, não era
o que eu queria que me preenchesse.
Esses são os monstros da cidade e eu não
os quero.
Liquido é o portal, liquido é o espelho.
Minha mente começa a trabalhar e em
instantes eu compreendo.
As pessoas da rua percebem o que eu entendi.
Eles param de assistir como se fosse um raro show de aberrações.
A chuva para. Nenhum som pode ser ouvido
além das batidas do meu coração e dos olhos famintos.
A escuridão me cega e eu sou forçado a
usar meus próprios dentes para fazer isso.
Eu não posso sentir a dor. Eu não posso
sentir o gosto do sangue.
Em alguns minutos a rua possui parte de mim.
Eu olho. Uma poça vermelha e nada mais.
Minhas pernas se tornam fracas e eu caio de
joelhos.
A batida do meu coração fica espaçada.
Minha respiração começa a falhar. Minha visão se embaça.
Eu começo a achar que estive sempre errado
no mesmo momento que minha cabeça cai no chão cheio de sangue.
Meus olhos continuam abertos. Minha plateia
continua lá imóvel.
Antes do meu último suspiro eu olho para
meu próprio sangue.
E eu vejo. Uma criatura com nove garras no
lugar onde deveria ter pernas. Três chifres negros em volta de um
único insano olho faminto. Sete mil dentes afiados sorriem para mim.
Antes da minha última gota de vida se
esvair o monstro me arrasta para ele.
Todos os sem-teto voltam a fazer suas coisas
de volta, acostumados com o que aconteceu.
A luz volta e o céu se abre mostrando as
estrelas.
Apenas uma poça de sangue permanece do que
aconteceu essa noite.
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