Faz 11 anos que eu comecei a ir na analista.
A primeira coisa que ela me deu foi um diário para que eu pudesse escrever nele meus pensamentos que me afligiam.
Faz 11 anos que eu descobri a impossibilidade de manter algo em segredo depois que ele foi armazenado em algum lugar.

Faz 7 anos que eu comecei a ir ao psiquiatra.
Desde então me foram receitados os mais variados tipos de remédios.
Faz 7 anos que percebi que esses remédios resolvem os problemas mentais fazendo com que você não seja mais você.

Faz 5 anos que eu decidi ser eu novamente
Desde então não tomei mais nenhum remédio.
Desde então minha família não me reconheceu mais.
Desde então tentaram de tudo para que eu voltasse a ser a ovelha de presépio que eles construíram.

Faz 5 anos que eles não conseguem.

Pra mim não faz diferença….
Eu ia dizer o que não faz diferença.
Mas nada faz diferença, então não preciso me preocupar com o predicativo do sujeito.

Parei de usar remédios.
Tanto os que faziam com que eu me concentrasse e ficasse ansiosa.
Tanto os que me continham e faziam com que eu ficasse tão anestesiada que sentia como se não estivesse viva.

Se era para ter problemas, pois eles sempre geravam uma contraindicação agressiva, que eu convivesse com os meus.

Mas nunca parei de escrever. Nunca parei de pôr no papel meus pensamentos. Fossem em forma de desenho ou de palavras.
A diferença era somente rasgar e queimar depois para que ninguém encontrasse e entrasse em choque.

Não sei se sou louca. Só essa ponderação já me faz pensar que eu não seja.
Acredito mais é que todos nós, a raça humana em sua totalidade, está completa e irremediavelmente fodida da cabeça.
E isso me engloba.
Então é provável que eu seja tão louca quanto o resto da humanidade.
Ou mais.
Ou menos.
Faz diferença?

Foram longos anos onde eu mergulhei de cabeça no abismo. O eterno e infinito vazio que existe dentro de mim.
Dentro de outros.
Dentro da humanidade.

Eu sou o retrato da família antes de ser passado por um editor de imagem.
Eu sou o sorriso derretido e podre que eles não querem mostrar.
E eu não apareço.
Não me importo.

Ter um local de pertencimento é superestimado.
Ter alguém que te entenda até o cerne do seu ser é superestimado.
Ter alguém com quem compartilhar cada uma de suas angústias é superestimado.

De alguma forma o ser humano é um animal político e social.
E eu me adequei para suprir essa necessidade genética.
O mundo virtual é meu lar desde que me compreendo enquanto pessoa.
Pessoa disforme, mas pessoa.
Dentro dele eu sou quem eu quiser ser.
Inclusive eu mesma.
E não importa.
Se alguém não gostar, se eu me incomodar, se o assunto acabar é só fechar a aba e abrir outra.

Dentro desse mundo eu nasci, cresci e me formei.
Absorvendo-o até onde minha fome me permitiu alcançar.
Eu o conheço tanto quanto posso me conhecer.
Devorando a ele e consumindo a mim no processo.

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