Monstros são maus.
Essa é a frase que está escrita no frasco
usado para rotular coisas abomináveis.
Pegamos qualquer tipo de ser incompreensível
e assustador e o confinamos eternamente em uma garrafa contendo os
dizeres: Cuidado! Monstro!
Monstros são maus?
Porque, continuamente, afastamos rapidamente
o olhar de qualquer coisa fora do normal (nosso normal) com a qual
nos deparamos?
Acredito que monstros não são maus.
Monstros são incompreendidos.
E é isso que faz com que eles nos assustem.
Nosso medo do desconhecido. Então preferimos colocá-los em caixas
hermeticamente fechadas, longe do nosso olhar. E damos o assunto por
encerrado.
Mas o monstro continua lá sufocando,
trancafiado dentro de nós, querendo urrar o que veio nos contar.
Trancafiamos não só o monstro.
Aprisionamos parte de nós que deveria despertar e evoluir.
Nos cegamos pelo medo do desconhecido e por
temermos nos reconhecer ao olhar dentro dos olhos do monstro.
Monstros não são maus. São diferentes,
vindos de outro lugar, diverso do nosso, diverso do que conhecemos.
Os monstros que infestam os pântanos. As
sombras que vagueiam pelas florestas. Os lobisomens que uivam para a
lua. Os vampiros que se escondem na noite. As criaturas criadas em
laboratórios. Os seres perdidos nos mundos fantásticos.
(Cabe salientar, aqui, que nem passa pela
minha cabeça apontar os “novos” vampiros, lobisomens, zumbis,
bruxas etc, como estando no mesmo patamar que os antigos monstros
análogos as suas new versions. Estes pobres monstros atuais, a meu
ver, são um grito desesperado para abrandar algo que nos dá medo.
Convertemos os vampiros em seres brilhantes, lobisomens em cãozinho
domesticados, zumbis em decoração, tudo para acalentar nossas
almas, buscando remodelar nosso medo para algo socialmente aceito aos
nossos olhos. Recriamos os monstros em formas patéticas para que o
grito de pavor fosse substituído por um suspiro apaixonado. Muitos
ainda não compreenderam o horror que causaram neste massacre.)
Corremos para rotular os monstros como maus,
perversos, e corremos para o mais longe deles depois disso.
E nos esquecemos de ouvir.
Nos esquecemos de olhar por dentro dos olhos
dos odiosos monstros e encontrarmos o reflexo da nossa própria alma.
De buscar compreender o porquê do horror.
Entender porque o vampiro chora lagrimas de
sangue. Sangue este, que também serve de alimento a ele. Porque o
lobisomem urra continuamente noite adentro. Porque os demônios
sorridentes propõem jogos maliciosos. O que as bruxas tanto cozinham
em seus caldeirões.
Acredito que talvez estejamos correndo tão
rápido em pânico que não conseguimos perceber que estamos
colocando mais de um tipo de ser dentro do “pote dos monstros”.
Criaturas bizarras e incompreensíveis, que
povoam nossa imaginação desde a infância. As personificações de
nossos medos internos, de partes de nós que ainda não conhecemos.
Esses são os monstros.
Mas usamos a mesma denominação, e assim, o
mesmo rótulo, para outro tipo de criatura vil. Chamamos de monstros
seres que residem na nossa dimensão. Criaturas terríveis e cruéis
que disseminam a maldade pelo nosso mundo. Assassinos, estupradores,
genocidas. Criaturas, humanas, como nós, que por qualquer razão
pessoal, cometem atrocidades que razão nenhuma explica o porquê de
serem feitas.
E os verdadeiros monstros continuam a gritar
o que vieram nos dizer, mas seus gritos são confundidos com as
bestialidades de humanos vis.
Os monstros permanecem incompreendidos, pois
ou são tidos como fruto da pura maldade, ou são transformados em
criaturas aceitáveis que nada vieram dizer ou nos ensinar.
Enquanto não os encaramos, ouvimos e
analisamos o que os monstros são e o que eles vieram nos trazer
continuamos cegos, surdos e sem evolução em alguma parte de nossa
alma que deveria desabrochar.
Infelizmente, dia a dia, deixamos o medo
ditar nossos passos.
Deveríamos abraçar os monstros. Nossos
monstros.
Devíamos perceber que a bruxa, o vampiro e
o lobisomem residem dentro de nossas almas. Que ao olharmos para
eles, olhamos para uma parte de nós, pouco conhecida. E que se a
bruxa cozinha algo com cobras e lagartos, se o vampiro não consegue
achar o próprio reflexo no espelho e o lobisomem tem a carne rasgada
a cada transformação de homem para animal, essas coisas são
reflexos nossos.
E para entender os monstros. Para entender a
nós mesmos. Não devemos correr ou rotular. Precisamos olhar.
Precisamos ver.
Depois de muito tempo, depois que parei de
correr, pude perceber que os monstros foram os melhores amigos que
tive.
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