O som chega até mim. A melodia hipnótica é feita de cinza. Cada uma das notas mostra a melancolia do músico.
Quando uma jovem negra começa a cantar eu começo a chorar.
Minha mente me arranca de lá, bem distante do velho rádio.
Tudo é branco. Um cegante branco. Poderia ser um belo dia se não estivesse nevando. O problema não é a neve no chão, mas o gelo no meu coração.
O uivo de um coiote corta o entardecer anunciando a chegada da noite.
Eu olho para o horizonte. A luz da lua dá à neve um singular brilho azulado. Isso me faz lembrar de uma antiga música.
Coberto pelo manto negro da noite eu continuo o meu caminho, pegadas são deixadas na fantasmagórica neve da noite, enquanto uma música triste de cowboy é assoviada.
O coiote solitário fez alguns amigos na noite e eles cantam a própria canção.
A estrada me leva até o horizonte. E aqui estou eu na entrada de uma cidade morta.
Eu respiro fundo, mas só consigo sentir o cheiro da poeira que sempre esteve ali.
Eu passo por uma velha placa. O nome da cidade e as saudações aos viajantes. Alguém riscou o número da população com uma tinta vermelha. No lugar do número 7391 foi escrito um “zero” sarcástico. O bastardo que fez isso provavelmente terminou sua vida quando pensou que vir para cá seria divertido.
Mas eu não me importo. Como eu também não me importo com as 7391 vidas que encontraram seu fim aqui.
Aquela antiga música atravessa novamente a minha mente. Uma lágrima escorre pelo meu rosto.
Eu posso lembrar do que eu nunca vi. Eu posso escutar eles gritando e correndo da morte.
Eu preciso terminar o que eu vim fazer.
Eu entro na cidade. O único som que existe é o dos meus passos na rua branca.
Eu passo por casas vazias. Algumas portas e janelas escancaradas. Provavelmente deixaram assim quando estavam correndo por suas vidas.
Eu me lembro que alguns meses antes eu estive no Egito e havia feito a descoberta da minha vida. Uma pequena caixa que cabia na palma da minha mão. Eu estava lá segurando uma caixa de ouro egípcia nas ruínas de uma cidade esquecida só porque eu escutei o palpite de um velho em um bar deplorável no Cairo.
Depois de alguma pesquisa consegui decifrar o texto que circundava a pequena caixa. Eu lembro claramente:

Em nenhum tempo, em nenhum lugar, ninguém chegou perto de atingir o conhecimento verdadeiro.
Aqui descansa a Verdade. E a partir dela vem o conhecimento e o poder verdadeiro. Você precisa plantar e deixar crescer. Mas esteja avisado, com a iluminação vem um grande pagamento. Para ter acesso a tudo isso é necessário compreender o horror.

O mais terrível é que, mesmo eu sabendo antes do inevitável e irrefreável mal que iria liberar, eu fiz o que fiz.
Eu paro na frente da maior construção da cidade. Uma igreja católica.
Eu vi tentáculos irromperem do chão. Rasgando a carne das pessoas. Envenenarem o ar. Caindo um a um os corpos encontrando a morte antes de chegarem ao chão. Eu vi seus rostos horrorizados. Os seus olhos. Todos tinham as órbitas vazias.
Eu gastei uma noite inteira em meu escritório pensando se eu deveria abrir ou não.
Subo as escadas da igreja. A porta está aberta, as janelas todas quebradas.
A música de novo. A forte voz feminina ecoa na minha cabeça. Fazer ou não fazer, de qualquer modo será incorreto para alguém, ela diz.
No deserto, no meu escritório, eu gastei uma semana inteira acordado para decifrar o pergaminho que estava escondido dentro da caixa dourada. A reunião de perigo com poder ilimitado. Eu fiz a minha escolha. Eu segui todas as instruções, uma a uma e agora eu estou aqui, entrando em uma antiga igreja católica em uma cidade morta.
Nos bancos da igreja corpos com seus olhos vazios. O silencio é quebrado por um som faminto. O chão treme baixo dos meus pés e eu caio. Enquanto eu me levanto eu me pergunto o que aconteceria se o velho texto estivesse errado. Não tema mal algum, aquele que começou será aquele que pode terminar e o único que terá algum benefício disso.
Cruzo o salão e desço para o porão. Eu me lembro da última vez que eu estive aqui. Trouxe somente a caixa, as instruções já estavam na minha mente. Eu me esgueirei para a igreja seguindo as instruções de usar um lugar sagrado para o berço.
Está escuro. Meus olhos demoram a se acostumar e começar a ver alguma coisa. Uma espectral luz púrpura permite que eu veja. Mas mesmo vendo eu não consigo compreender. Não tem cor alguma, mesmo sendo roxo e verde. É um hibrido entre planta e coisa. Tem tentáculos, centenas deles, incontroláveis batendo no chão, no teto, nas paredes. Uma nuvem densa de poeira sobe. Ele me vê. Seus braços começam a me cercar.
A mulher começa a cantar. Eu vejo você no fim do dia, me complete. Eu sou sua e você é meu.
A besta, o monstro, a coisa aparenta me conhecer e me reconhece. Juntando todas as minhas forças eu brado o que foi escrito para ser dito. Eu sou seu mestre, você é minha criação e eu estou aqui, então dê-me o que é meu, dê-me a Verdade.
Todos os tentáculos me envolvem. Eu nem tenho tempo de gritar. A coisa, a minha coisa me devora e eu sou dragado com corpo, mente e alma. Obliterado, sou apagado da existência deixando para trás somente as ruínas de uma cidade morta com uma pequena caixa de ouro cravada no seu subterrâneo.

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