Todo inferno tem um muro

Odeio pessoas

As vezes no particular
do balançar de uma mesa
que está bamba e fazemos força
para que não mexa.

As vezes no coletivo
de um sábado entardecendo
nas calçadas lotadas da
Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

As vezes na individualidade
de não se calar
e impossibilitar o escutar
do pensamento pessoal
ponderando porque o cosmo fez com que
uma folha caísse em meu colo.

As vezes na multidão
que ensurdece a razão e
não me deixa compreender
se estou certa ou errada
de concordar com a
imbecil maioria

Seja na idiotice das massas
ou na ingenuidade burra da singularidade
eu odeio  pessoas.

Há que observá-las de longe
para, ao menos tentar,
admirá-las com o auxílio
do preenchimento de lacunas
Porque quanto mais perto
mais nítido
E "a maioria das pessoas
é melhor no abstrato"

Tanto eu, quanto você, quanto nós.

Um brinde à mim

Um brinde à mim.
Por estar aqui.
Mesmo que a base de cerveja.
A qual se faz necessária
para que eu possa me congratular.



Dia após dia
navegando entre a ressaca e a bebedeira
vou trilhando caminhos tortuosos.
E mesmo que caia,
com alcool ou não sempre se cai,
invariavelmente me colocarei a andar.



Há um fim.
Mas ele não importa
a consciência é inexistente
após um momento.
Então continuo,
continuarei.
Quando não houver além
não haverá desespero
apenas a brandura de não ser.



Então um brinde à mim.
Pois vivi (e viverei)
todos os dias da minha vida
quer queira ou quer não.



E sigo, dia após dia
sem saber se o que vejo
e o que vivo
é tão nítido e verdadeiro
a ponto de doer
ou se está embaçado e deturpado
a ponto de se tornar surreal.



Mas sigo
um passo
um tropeço
um copo
um cambalear
um brinde
a cada dia
todos os dias.
Todas as postagens daqui pra baixo fizeram parte da compilação para o livro Coffiee n Cigaretts.
As que estão acima foram escritas após 2018.

Como a borboleta, precisei de uma transformação. De um momento isolada em meu castelo para que eu possa renascer mais bela. Fora da insanidade do corre-corre no dia-a-dia, a beleza da simplicidade pode ser admirada com mais entusiasmo.

Pela janela eu vejo
gotas caindo do céu
elas têm um brilho que torna cinza qualquer sorriso

lágrimas do céu
feitas de pura tristeza dos anjos
lavam a alma do mundo

pelo vidro eu vejo
o pequeno sussurro deles
como uma voz baixa chorando

no vidro da janela eu vejo
a imagem refletida da minha alma
vertendo lágrimas no meu rosto
pondo pra fora todas as coisas ruins do meu espírito.