Todo inferno tem um muro

Odeio pessoas

As vezes no particular
do balançar de uma mesa
que está bamba e fazemos força
para que não mexa.

As vezes no coletivo
de um sábado entardecendo
nas calçadas lotadas da
Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

As vezes na individualidade
de não se calar
e impossibilitar o escutar
do pensamento pessoal
ponderando porque o cosmo fez com que
uma folha caísse em meu colo.

As vezes na multidão
que ensurdece a razão e
não me deixa compreender
se estou certa ou errada
de concordar com a
imbecil maioria

Seja na idiotice das massas
ou na ingenuidade burra da singularidade
eu odeio  pessoas.

Há que observá-las de longe
para, ao menos tentar,
admirá-las com o auxílio
do preenchimento de lacunas
Porque quanto mais perto
mais nítido
E "a maioria das pessoas
é melhor no abstrato"

Tanto eu, quanto você, quanto nós.

Um brinde à mim

Um brinde à mim.
Por estar aqui.
Mesmo que a base de cerveja.
A qual se faz necessária
para que eu possa me congratular.



Dia após dia
navegando entre a ressaca e a bebedeira
vou trilhando caminhos tortuosos.
E mesmo que caia,
com alcool ou não sempre se cai,
invariavelmente me colocarei a andar.



Há um fim.
Mas ele não importa
a consciência é inexistente
após um momento.
Então continuo,
continuarei.
Quando não houver além
não haverá desespero
apenas a brandura de não ser.



Então um brinde à mim.
Pois vivi (e viverei)
todos os dias da minha vida
quer queira ou quer não.



E sigo, dia após dia
sem saber se o que vejo
e o que vivo
é tão nítido e verdadeiro
a ponto de doer
ou se está embaçado e deturpado
a ponto de se tornar surreal.



Mas sigo
um passo
um tropeço
um copo
um cambalear
um brinde
a cada dia
todos os dias.
Todas as postagens daqui pra baixo fizeram parte da compilação para o livro Coffiee n Cigaretts.
As que estão acima foram escritas após 2018.

Como a borboleta, precisei de uma transformação. De um momento isolada em meu castelo para que eu possa renascer mais bela. Fora da insanidade do corre-corre no dia-a-dia, a beleza da simplicidade pode ser admirada com mais entusiasmo.

Pela janela eu vejo
gotas caindo do céu
elas têm um brilho que torna cinza qualquer sorriso

lágrimas do céu
feitas de pura tristeza dos anjos
lavam a alma do mundo

pelo vidro eu vejo
o pequeno sussurro deles
como uma voz baixa chorando

no vidro da janela eu vejo
a imagem refletida da minha alma
vertendo lágrimas no meu rosto
pondo pra fora todas as coisas ruins do meu espírito.


sempre que ascendo eu vejo você caindo
traição é uma ferida tão profunda que deixa uma cicatriz na alma
toda a eternidade pode passar
mas nem o infinito pode curar

Quem eu sou? Eu posso realmente ser?

Pra onde, para que, porque?
Nas minhas próprias profundezas eu não consigo ver quem eu realmente sou
Sempre perco algo
Sempre mudo

eterna construção
tentando entender a música do cosmo
para dançar
ande na direção do universo
e não ande para trás
Nunca mais

somos insignificantes
o tempo não existe
tudo é efêmero e dura um instante
aceite

A chuva molhava meus cabelos e em meio as gotas que escorriam pelo meu rosto, comecei a chorar.
Por que morrer pelas guerras, porque viver sem objetivo? Nós temos que evoluir, mas algo que está acima de nós não nos permite.
Olho novamente a poça, talvez em busca de mais respostas. E por um segundo vejo meu reflexo enlameado, o vento bate na água e transforma a mim mesma em nada.
Uma brisa quente toca minha face e quase num despertar percebo que nada daquilo poderia ter acontecido. Enxugo minhas lágrimas e abro um sorriso – devo estar louca – e começo a rir, riso que é abafado pela tempestade noturna.

Eu não tenho um diabinho e um pequeno anjo nos meus ombros.
Eu tenho muitos demônios dentro de mim.

E nós jogamos cartas juntos.

Eles gostam de mim porque minha alma é pútrida.
Eu gosto deles porque eles são meu reflexo.

Mas algumas vezes eu não estou bem.
Talvez triste, solitária ou fraca.
Meus demônios sentem esse cheiro.
Eles ficam com fome e precisam se alimentar.

E eles me comem.
Colocam suas garras dentro de mim e rasgam.
Bebem meu sangue e sugam meus ossos.

Logo, eu morro.

Então eu renasço.

E a gente joga cartas novamente.

a casa das coisas que nunca existiram


um sussurro na esquina da mente
um desejo não achado
indica que eles sempre estão ali

a violação da lei da natureza
a visão no meio da noite
anuncia que eles sempre estão aqui

arranhando, esmagando, crescendo
mais forte do que vulnerável

o monstro no armário
o diabo na alma
o mito na mente

nascendo, aprendendo, escondendo
você pode não ver, mas consegue sentir

eles são mais verdadeiros do que a realidade
porque você não consegue vê-los, não com seus olhos apodrecidos
eles só aparecem pelo olhar da insanidade

Monstros



Monstros são maus.
Essa é a frase que está escrita no frasco usado para rotular coisas abomináveis.
Pegamos qualquer tipo de ser incompreensível e assustador e o confinamos eternamente em uma garrafa contendo os dizeres: Cuidado! Monstro!
Monstros são maus?
Porque, continuamente, afastamos rapidamente o olhar de qualquer coisa fora do normal (nosso normal) com a qual nos deparamos?
Acredito que monstros não são maus. Monstros são incompreendidos.
E é isso que faz com que eles nos assustem. Nosso medo do desconhecido. Então preferimos colocá-los em caixas hermeticamente fechadas, longe do nosso olhar. E damos o assunto por encerrado.
Mas o monstro continua lá sufocando, trancafiado dentro de nós, querendo urrar o que veio nos contar.
Trancafiamos não só o monstro. Aprisionamos parte de nós que deveria despertar e evoluir.
Nos cegamos pelo medo do desconhecido e por temermos nos reconhecer ao olhar dentro dos olhos do monstro.
Monstros não são maus. São diferentes, vindos de outro lugar, diverso do nosso, diverso do que conhecemos.
Os monstros que infestam os pântanos. As sombras que vagueiam pelas florestas. Os lobisomens que uivam para a lua. Os vampiros que se escondem na noite. As criaturas criadas em laboratórios. Os seres perdidos nos mundos fantásticos.
(Cabe salientar, aqui, que nem passa pela minha cabeça apontar os “novos” vampiros, lobisomens, zumbis, bruxas etc, como estando no mesmo patamar que os antigos monstros análogos as suas new versions. Estes pobres monstros atuais, a meu ver, são um grito desesperado para abrandar algo que nos dá medo. Convertemos os vampiros em seres brilhantes, lobisomens em cãozinho domesticados, zumbis em decoração, tudo para acalentar nossas almas, buscando remodelar nosso medo para algo socialmente aceito aos nossos olhos. Recriamos os monstros em formas patéticas para que o grito de pavor fosse substituído por um suspiro apaixonado. Muitos ainda não compreenderam o horror que causaram neste massacre.)
Corremos para rotular os monstros como maus, perversos, e corremos para o mais longe deles depois disso.
E nos esquecemos de ouvir.
Nos esquecemos de olhar por dentro dos olhos dos odiosos monstros e encontrarmos o reflexo da nossa própria alma. De buscar compreender o porquê do horror.
Entender porque o vampiro chora lagrimas de sangue. Sangue este, que também serve de alimento a ele. Porque o lobisomem urra continuamente noite adentro. Porque os demônios sorridentes propõem jogos maliciosos. O que as bruxas tanto cozinham em seus caldeirões.
Acredito que talvez estejamos correndo tão rápido em pânico que não conseguimos perceber que estamos colocando mais de um tipo de ser dentro do “pote dos monstros”.
Criaturas bizarras e incompreensíveis, que povoam nossa imaginação desde a infância. As personificações de nossos medos internos, de partes de nós que ainda não conhecemos. Esses são os monstros.
Mas usamos a mesma denominação, e assim, o mesmo rótulo, para outro tipo de criatura vil. Chamamos de monstros seres que residem na nossa dimensão. Criaturas terríveis e cruéis que disseminam a maldade pelo nosso mundo. Assassinos, estupradores, genocidas. Criaturas, humanas, como nós, que por qualquer razão pessoal, cometem atrocidades que razão nenhuma explica o porquê de serem feitas.
E os verdadeiros monstros continuam a gritar o que vieram nos dizer, mas seus gritos são confundidos com as bestialidades de humanos vis.
Os monstros permanecem incompreendidos, pois ou são tidos como fruto da pura maldade, ou são transformados em criaturas aceitáveis que nada vieram dizer ou nos ensinar.
Enquanto não os encaramos, ouvimos e analisamos o que os monstros são e o que eles vieram nos trazer continuamos cegos, surdos e sem evolução em alguma parte de nossa alma que deveria desabrochar.
Infelizmente, dia a dia, deixamos o medo ditar nossos passos.
Deveríamos abraçar os monstros. Nossos monstros.
Devíamos perceber que a bruxa, o vampiro e o lobisomem residem dentro de nossas almas. Que ao olharmos para eles, olhamos para uma parte de nós, pouco conhecida. E que se a bruxa cozinha algo com cobras e lagartos, se o vampiro não consegue achar o próprio reflexo no espelho e o lobisomem tem a carne rasgada a cada transformação de homem para animal, essas coisas são reflexos nossos.
E para entender os monstros. Para entender a nós mesmos. Não devemos correr ou rotular. Precisamos olhar. Precisamos ver.
Depois de muito tempo, depois que parei de correr, pude perceber que os monstros foram os melhores amigos que tive.

Olhe dentro dos meus olhos
e você irá ver
Criaturas caminhando
Onde minha alma deveria estar

existe algo dentro de mim
como um pequeno inseto
anda de um lado para o outro e eu não sei onde está

existe algo dentro de mim
como um sussurro
eu escuto, mas é tão baixo que não entendo o que quer dizer

existe algo dentro de mim
como uma cicatriz
está curada, mas eu posso vê-la e nada nunca será como antes

existe algo dentro de mim
como um grito
é incomodo e sem sentido, mas continuará sempre ali

O som chega até mim. A melodia hipnótica é feita de cinza. Cada uma das notas mostra a melancolia do músico.
Quando uma jovem negra começa a cantar eu começo a chorar.
Minha mente me arranca de lá, bem distante do velho rádio.
Tudo é branco. Um cegante branco. Poderia ser um belo dia se não estivesse nevando. O problema não é a neve no chão, mas o gelo no meu coração.
O uivo de um coiote corta o entardecer anunciando a chegada da noite.
Eu olho para o horizonte. A luz da lua dá à neve um singular brilho azulado. Isso me faz lembrar de uma antiga música.
Coberto pelo manto negro da noite eu continuo o meu caminho, pegadas são deixadas na fantasmagórica neve da noite, enquanto uma música triste de cowboy é assoviada.
O coiote solitário fez alguns amigos na noite e eles cantam a própria canção.
A estrada me leva até o horizonte. E aqui estou eu na entrada de uma cidade morta.
Eu respiro fundo, mas só consigo sentir o cheiro da poeira que sempre esteve ali.
Eu passo por uma velha placa. O nome da cidade e as saudações aos viajantes. Alguém riscou o número da população com uma tinta vermelha. No lugar do número 7391 foi escrito um “zero” sarcástico. O bastardo que fez isso provavelmente terminou sua vida quando pensou que vir para cá seria divertido.
Mas eu não me importo. Como eu também não me importo com as 7391 vidas que encontraram seu fim aqui.
Aquela antiga música atravessa novamente a minha mente. Uma lágrima escorre pelo meu rosto.
Eu posso lembrar do que eu nunca vi. Eu posso escutar eles gritando e correndo da morte.
Eu preciso terminar o que eu vim fazer.
Eu entro na cidade. O único som que existe é o dos meus passos na rua branca.
Eu passo por casas vazias. Algumas portas e janelas escancaradas. Provavelmente deixaram assim quando estavam correndo por suas vidas.
Eu me lembro que alguns meses antes eu estive no Egito e havia feito a descoberta da minha vida. Uma pequena caixa que cabia na palma da minha mão. Eu estava lá segurando uma caixa de ouro egípcia nas ruínas de uma cidade esquecida só porque eu escutei o palpite de um velho em um bar deplorável no Cairo.
Depois de alguma pesquisa consegui decifrar o texto que circundava a pequena caixa. Eu lembro claramente:

Em nenhum tempo, em nenhum lugar, ninguém chegou perto de atingir o conhecimento verdadeiro.
Aqui descansa a Verdade. E a partir dela vem o conhecimento e o poder verdadeiro. Você precisa plantar e deixar crescer. Mas esteja avisado, com a iluminação vem um grande pagamento. Para ter acesso a tudo isso é necessário compreender o horror.

O mais terrível é que, mesmo eu sabendo antes do inevitável e irrefreável mal que iria liberar, eu fiz o que fiz.
Eu paro na frente da maior construção da cidade. Uma igreja católica.
Eu vi tentáculos irromperem do chão. Rasgando a carne das pessoas. Envenenarem o ar. Caindo um a um os corpos encontrando a morte antes de chegarem ao chão. Eu vi seus rostos horrorizados. Os seus olhos. Todos tinham as órbitas vazias.
Eu gastei uma noite inteira em meu escritório pensando se eu deveria abrir ou não.
Subo as escadas da igreja. A porta está aberta, as janelas todas quebradas.
A música de novo. A forte voz feminina ecoa na minha cabeça. Fazer ou não fazer, de qualquer modo será incorreto para alguém, ela diz.
No deserto, no meu escritório, eu gastei uma semana inteira acordado para decifrar o pergaminho que estava escondido dentro da caixa dourada. A reunião de perigo com poder ilimitado. Eu fiz a minha escolha. Eu segui todas as instruções, uma a uma e agora eu estou aqui, entrando em uma antiga igreja católica em uma cidade morta.
Nos bancos da igreja corpos com seus olhos vazios. O silencio é quebrado por um som faminto. O chão treme baixo dos meus pés e eu caio. Enquanto eu me levanto eu me pergunto o que aconteceria se o velho texto estivesse errado. Não tema mal algum, aquele que começou será aquele que pode terminar e o único que terá algum benefício disso.
Cruzo o salão e desço para o porão. Eu me lembro da última vez que eu estive aqui. Trouxe somente a caixa, as instruções já estavam na minha mente. Eu me esgueirei para a igreja seguindo as instruções de usar um lugar sagrado para o berço.
Está escuro. Meus olhos demoram a se acostumar e começar a ver alguma coisa. Uma espectral luz púrpura permite que eu veja. Mas mesmo vendo eu não consigo compreender. Não tem cor alguma, mesmo sendo roxo e verde. É um hibrido entre planta e coisa. Tem tentáculos, centenas deles, incontroláveis batendo no chão, no teto, nas paredes. Uma nuvem densa de poeira sobe. Ele me vê. Seus braços começam a me cercar.
A mulher começa a cantar. Eu vejo você no fim do dia, me complete. Eu sou sua e você é meu.
A besta, o monstro, a coisa aparenta me conhecer e me reconhece. Juntando todas as minhas forças eu brado o que foi escrito para ser dito. Eu sou seu mestre, você é minha criação e eu estou aqui, então dê-me o que é meu, dê-me a Verdade.
Todos os tentáculos me envolvem. Eu nem tenho tempo de gritar. A coisa, a minha coisa me devora e eu sou dragado com corpo, mente e alma. Obliterado, sou apagado da existência deixando para trás somente as ruínas de uma cidade morta com uma pequena caixa de ouro cravada no seu subterrâneo.

As lágrimas de uma mulher madura que um dia já foi fecunda
que sente seu ventre vazio se contorcer de saudade da prole que lhe foi tomada
Fêmea que já gritou até sua voz se transformar num uivo.
Com amor, ódio e desalento caiu até padecer no mais profundo dos abismos.
Agora de joelhos
sua face se esconde
em meio ao excremento da triste dor tortuosa das almas do além.
E seu pranto se esvai
Sangue, suor e alma
tocando aquele solo profano
mostrando em suplica dor e esperança um sentimento eternamente infinito de pura força, poder e selvageria nunca antes conhecido naquele lugar
Os lamentos se silenciam, os trovoes de fogo se congelam, a violência dos furacões acaricia. O ódio dos nativos paralisa e tempo para.

E através da mais profunda fenda, onde se imaginava que nem o nada pudesse existir, um ser adormecido é tocado.
Seu despertar em fúria se transforma e através dos urros guturais as duas criaturas se chocam.
A que estava a beira de sua destruição e a inominável criatura enfurecida.
Em um infindável breve momento a essência deles rodopiam e dançam. E quando esse instante se finda não existe mais mulher, não existe mais ser. Os dois numa única nova coisa habitando o corpo mortal da fêmea se levante de seu desalento e com um olhar que chorava, mas agora brilha incandescente.
Ela agora sabe, os dois sabem, um, livre para deixar sua prisão o outro com a certeza da vitória.
E assim, sem limites imagináveis, tudo começa

Tandrum: o Deus do Silêncio
Há muitas eras atrás, outros Deuses eram adorados. Tanto pelos humanos como por outras raças.
Mas a inevitável mudança chegou. Em meio a guerras e esquecimento os Deuses de outrora desapareceram.
Havia Tandrum, o grande Deus do Silêncio. Não se sabe por quem nem porque, mas Tandrum recebeu um golpe fatal pelas costas que perfurou seu coração.
E assim, num silêncio surdo, Tandrum despencou, caindo dos céus numa próspera cidade. E o silêncio foi o túmulo dos dois. Afundaram, com a queda, no esquecimento.
Os poucos rumores dizem que a cidade inteira virou pelo avesso e que no silêncio profundo da noite apenas o lamurio dos seus cidadãos pode ser ouvido nas montanhas.

Criatura perfeita

eu não sou perfeito
perfeição é um mito
perfeição é estagnação

eu sou a metamorfose
o novo e o velho juntos

eu sou bestial, eu sou selvagem
aquele que você precisa, mas aquele que você teme

eu preencho as lacunas
quando não há ninguém

eu não mudo por você
mesmo que mudança seja a minha natureza
movendo-me para um lugar que você não alcança

sempre sendo. Mais e mais
ensinando você a ser você mesmo
não ha perfeição mais necessária

Não há razão alguma,
Mas eu consigo enumerar todas elas.

Ciclos


Ciclos

Deitada
O cobertor me abraça
As pernas e braços pra fora mostram que quero fugir
Não consigo
Não tenho forças

Reúno toda a minha coragem
Acendo um cigarro
Mal fumo
Apago ele pela metade em um espaço pequeno entre as outras guimbas

Olho em volta
O lençol caído no chão entre roupas sujas
Tento suspirar, mas o ar me falta

Tenho que levantar pra ir ao banheiro
Evito o espelho
Meu reflexo deve estar despedaçado

Sentada na privada
a calcinha abaixada
me faz sentir um lixo
Fico lá mais tempo que deveria, que queria

Tomo um banho
mas verto mais lágrimas que o próprio chuveiro
Busco em mim alguma vontade
As vezes eu acho
e tento enchê-la de carinho
para que cresça forte

Mas o som do despertador na manhã seguinte
a mata de forma cruel
e eu fico olhando seu sangue escorrendo
imóvel

tudo é o mesmo


Tudo é o mesmo

Você pode procurar, você pode buscar
Mas tudo é o mesmo
a irritante vazia idêntica coisa
no primeiro momento
cada pessoa tem sua singularidade única
o novo conhecimento
tem o brilho do que você está procurando
mas passado o primeiro instante
lendo através das páginas
através das mentes
todo mundo se torna mais e mais igual
quanto mais se conhece mais raso
E eu percebo
que tudo é tediosamente igual

A humanidade falhou miseravelmente
Eu falhei miseravelmente
Quanto mais olho para os humanos corrompidos
percebo que a mácula está em mim

Lendas perdidas no vento, sopradas para a distância, esquecidas no nada.
Estamos nos afogando no fogo e doidos de sanidade.
Onde minha sombra foi brilhar, porque ela não tem vida própria, porque ela não pôde dizer adeus?
Nada é nada, mas o tudo também é nada e o nada passa a ser tudo.
Andando pelo universo peguei carona num cometa-sonho, bati numa estrela-mito, tudo é igual aqui. Igual a nós.
Risos são notados no meio de cachoeiras salgadas, são risos histéricos de um amante do choro.
Distância é primordial, imagina se não houvesse distância. Eu estaria em você, você seria eu.
Ontem não amanheceu

O fim



sombras e cinzas
uma figura estática capturada em um instante
o véu negro do desespero procurando sem esperança

sangue e silêncio
um fragmento de uma era que começou a ruir
a essência já não gera vida, mas proclama a morte
um grito mudo por ajuda que foi cortado antes do tempo

morrendo sem uma cauda
sangrando sem culpa
deitada eternamente nos campos do sofrimento

Chaos


Chaos

Um colapso
Dois universos
Toda uma bagagem alheia ao tempo

Desconexão da lógica
Do comum
Do real

Não há real
Nada é palpável
Só há caos

Dimensões emaranhadas ao acaso.
Essência espalhada ao vento
A brisa do outro acariciando a face
O perfume da alma que inebria.

Tudo foi tocado e trocado
E num instante-eternidade se foi
Pois o tempo não existe
Somente o caos.

Olhares


Olhares

Completamente nua
Apenas a áspera vergonha está entre minha pele e seu olhar

Você me olha
Percebo que não me vê

Estou ali, me entrego
dispo-me de tudo e te encaro crua

Seus olhos buscam mais
Seus olhos não me buscam
Você não está ali

Somente eu
Carne
Alma

Buscando um querer tão pleno
Quanto a pureza da minha entrega

Buscando olhos que me vejam
Tanto quanto eu queira me mostrar para eles

Apenas


Apenas

As palavras fogem de mim
o sentido se esconde
e não consigo achar razão

Quanto mais eu tento
Mais eu não consigo

Eu posso gastar todas as palavras
E explicar todos as emoções
Mas não é o suficiente

Esse sentimento dentro de mim
É maior que todos
E eu apenas não consigo explicá-lo

Posso apenas entender
Apenas sentir

Desejo
Um sorriso no canto da boca.

Mordo meus lábios e
fecho meus olhos
pensamento em você.

Borboletas nascem dentro de mim
e se espalham por todo o meu corpo.

já nem tristeza consigo sentir
apenas um vazio no lugar que foi um dia
o leito do meu coração
já nada consigo sentir,
pois sem você perto de mim,
qualquer sentimento se tornou vão

mas antes de te conhecer eu já tinha esquecido você pois algo me faltava

me parece inalcançável
a ideia de um dia achar
nesta ou em outra língua
seja morta, seja dialeto
uma efêmera expressão
palavra perdida
poema esquecido
termo desconhecido
que possa dizer
se aproximar em mostrar
o que em mim se passa
o sentimento crescente
o sufoco q que pesa
a dor ardente
a incontestável felicidade
presa em um momento
que alcança a eternidade infinita
e fechando meus olhos sonho
e passeando pelos oníricos campos percebo
que somente através
do doce bailar envolvente da melodia
onde a compreensão não se faz necessária
posso sentir a minha alma pulsando
no mesmo ritmo que meu eu pulsa
em te amar

eu não conheço você
eu não sei quem você é
mas meu eu, minha alma, minha energia
conheceram você há muito tempo atrás
e essa parte de mim te ama

Timeless


Timeless

Uma sensação de pertencimento
igualdade
tranquilidade

Um prazer penetrante
longo
que desfaz o tempo em volta

Queria
nesse momento,
que não existe,
que a distância não existisse também

O tempo corrói


O tempo corrói.

Aquele velho papel na gaveta não pode ser rasgado ou admirado porque ele já virou pó.

A dor não rasga mais a alma.

A felicidade é um fantasma que transcendeu.

O que éramos apodreceu, atraiu moscas e vermes, se decompôs e jaz morto atrás de um sofá desbotado.

As cicatrizes não coçam mais. Só desfiguram aquela pessoa dentro do espelho.

As lembranças, enferrujadas, perderam o brilho do momento e soltam poeira quando tocamos.

O tempo não cura, não é remédio.
Como um toque de midas decadente, o tempo desintegra tudo que toca.

O tempo é eterno


O tempo é eterno.

O infinito é indissociável da existência.

Desde o princípio lá estava.

O grande pilar onde tudo se sustenta.

O derradeiro suspiro da realidade.

Pai destino, criador de todas as possibilidades.

Diferente do tempo que é.

Nós somente estamos.

O tempo não é real


O tempo não é real.

Somos instantes.
Momentos do agora presos em uma malha de acontecimentos que não se conectam.

O seu ontem nunca existiu.
Seu amanhã não poderá ser tocado.
Você não é a pessoa do seu passado e não será a pessoa que viverá seu futuro.

Somos instantes.
E no instante seguinte não somos mais.

A nossa existência é a luz que pisca num radar.
Hora acesa, hora apagada, cada hora num lugar.

Não há um eixo que conecte essa linha temporal falaciosa.

Somos imagens reveladas em fotografias guardada numa caixa de sapato velha.

Somos instantes.
Não somos nada.
E estamos confinados a isso

A capela da doutrina do fim dos tempos
no início, no primeiro instante algo existia, algo que esteve lá antes do próprio começo. Algo que sempre foi.

o começo prenuncia o fim dos tempos
tudo irá acabar
cedo ou tarde
como termina é com você
o que é o tempo?
Tempo é nada
foi criado pelo homem para controlar o homem
feito para direcionar sua visão para coisas que não são importantes
tempo não importa
a vida é feita de grandes momentos
não importa quanto tempo você gasta com eles
o tempo voa
momentos são guardados na mente
eu não preciso do tempo todo
eu preciso de todos os momentos

Possibilidades


Possibilidades

A dualidade que não se divide
entre isso ou aquilo
A dualidade que permite
ser isso e aquilo

A completude que não preenche
que não ocupa o vazio
A completude que vai além
permite

O tempo que não é contado
que não tem começo, meio e fim
O tempo que não existe
é infinito e eterno

Eu sei que hoje é a noite.
Um apagão colocou a cidade inteira no escuro.
Quando a escuridão chegou eu soube que era a hora de abandonar tudo.
Eu deixei para trás meu apartamento cheio de lixo, poeira, fumaça e fogo.
Eu estou no centro da cidade agora, a chuva chega até mim fazendo uma cortina que eu preciso atravessar.
Além de mim, os sem-teto são os únicos nas ruas. Agora eu sou um deles.
Eles não têm nada, eu não tenho nada. As aflições passadas não são mais parte da nossa vida.
Eles já veem. E eu quero saber. Eu preciso saber.
Quando você não tem uma vida, outras coisas preenchem sua alma.
Eu conheço o caminho. Com anos de pesquisa eu descobri como fazer. Mas só essa noite eu compreendi que eu não posso ter mais nada, porque isso precisa de todo o meu eu para entrar e ser parte de mim. Para ser eu.
No passado, em uma era esquecida, todo liquido era um portal.
Através dele você pode ver. Pode saber. Pode ter as respostas. Você pode ter a verdade.
Antes do nosso tempo, em um tempo mais antigo, uma raça ancestral usou um ritual. E a verdade morreu com essas pessoas e esse rito.
Mas essa noite eu recriarei isso.
E agora eu estou aqui, no meio da cidade, em uma grande noite escura. Apenas eu, a chuva morna e os outros desabrigados.
Eles sabem. Seus olhos estão focados em mim, me seguindo mesmo quando não conseguem me ver.
Esses olhos. Eu posso ver através deles. Eu posso ver o que eles viram. E eles estão cheios disso.
Eu quero ver. Eu preciso ver.
E u paro na frente de uma poça negra feita de sujeira e água. Eu sinto os sem-teto pararem. Um grito de uma senhora é preso na garganta dela. Não há mais o som da tempestade. Somente eu e a água suja.
Eu olho através e eu vejo. Um único olho inumano feito de cinzas olha para mim. Eu não consigo encará-lo por muito tempo e ele se vai para sempre.
Isso não era o que em queria ver, não era o que eu queria que me preenchesse.
Esses são os monstros da cidade e eu não os quero.
Liquido é o portal, liquido é o espelho.
Minha mente começa a trabalhar e em instantes eu compreendo.
As pessoas da rua percebem o que eu entendi. Eles param de assistir como se fosse um raro show de aberrações.
A chuva para. Nenhum som pode ser ouvido além das batidas do meu coração e dos olhos famintos.
A escuridão me cega e eu sou forçado a usar meus próprios dentes para fazer isso.
Eu não posso sentir a dor. Eu não posso sentir o gosto do sangue.
Em alguns minutos a rua possui parte de mim.
Eu olho. Uma poça vermelha e nada mais.
Minhas pernas se tornam fracas e eu caio de joelhos.
A batida do meu coração fica espaçada. Minha respiração começa a falhar. Minha visão se embaça.
Eu começo a achar que estive sempre errado no mesmo momento que minha cabeça cai no chão cheio de sangue.
Meus olhos continuam abertos. Minha plateia continua lá imóvel.
Antes do meu último suspiro eu olho para meu próprio sangue.
E eu vejo. Uma criatura com nove garras no lugar onde deveria ter pernas. Três chifres negros em volta de um único insano olho faminto. Sete mil dentes afiados sorriem para mim.
Antes da minha última gota de vida se esvair o monstro me arrasta para ele.
Todos os sem-teto voltam a fazer suas coisas de volta, acostumados com o que aconteceu.
A luz volta e o céu se abre mostrando as estrelas.
Apenas uma poça de sangue permanece do que aconteceu essa noite.

Está chovendo agora. O brilho amarelo do som é fraco diante do azul acinzentado do céu.
Tudo é apático. Com olhos tristes eu só posso ver em preto e branco.